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Especial
Eminem
Uns
dizem que é a razão por que os jovens faltam às aulas.
Outros não o levam sequer suficientemente a sério para tal.
Chamam-lhe palhaço, dizem que não passa de uma
super-operação de marketing muito bem montada e que dentro
de pouco tempo estará de volta ao anonimato. A favor ou contra,
com conhecimento da causa hip hop ou sem ele, a verdade é que ao
longo de 2002 Eminem provou por verso + verso que tem o mundo a seus pés,
e o próximo passo é fazê-lo girar no sentido inverso.
Violência, agressividade, preconceitos, racismo, choque, acusação,
a vida tal como ela é, como se diz por aí, contada em histórias
proibidas a menores de 18 anos (na teoria), mas que na prática
está ao alcance de miúdos e graúdos. O Cotonete destaca
Eminem como figura do ano 2002 e revela, em quatro partes, toda a verdade
sobre a história de Slim Shady.
Maria
João Serra
I.
2002: Odisséia no Rap
Foram
os mesmos atributos que atiraram Eminem para o circuito underground quando
pela primeira vez se começou a ouvir falar do "puto branco
que queria fazer rap", que acabaram por fazer dele o mais poderoso
orador dos EUA durante 2002. Pode não ter começado o ano
da melhor forma, mas habituado que está a lutar contra a maré,
Eminem provocou em três tempos uma mudança de 180º no
rumo dos acontecimentos. Passou por cima de uma enviada pelos simpatizantes
da Al-Qaeda, por se ter vestido de Bin Laden no vídeo clipe de Without
Me, e confirmou aos microfones da BBC Radio One todas as críticas
que dirigiu a Moby no mesmo tema.
Polêmicas
à parte, o certo é que quandoThe Eminem Show
chegou aos escaparates, no
dia 26 de Maio, chegou ao topo das tabelas de vendas em tempo recorde,
tornando-se no álbum de rap que mais vendeu em menos tempo, dando
muito que pensar aos grandes da Interscope. No entanto, as coisas não
correram tão bem no concerto de apresentação do seu
mais recente álbum, dado que uma série de fãs acabou
por passar a noite no hospital.
Eleito
a Personalidade do Ano 2002 pela revista Rolling Stone, Eminem
viu o seu trabalho ser reconhecido, por meio de prêmios, pelas mais variadas
entidades ligadas à música, não só nos EUA,
como também na Europa,
onde esteve no mês de Novembro, mais concretamente em Barcelona,
a atuar nos prêmios de música da MTV. Depois de, provavelmente
ter sido advertido para não mostrar o dedo ao público,
Eminem contornou a situação, mostrando o rabo. E o espetáculo
continuou. É que agora, o puto para além de
irreverente é influente, e mexe com a cabeça de milhões
de jovens. E milhões de dólares, e de euros, e por aí
fora.
Habituado
a representar ao microfone e em vídeo clipes, Eminem
experimentou pela primeira vez em 2002, o maravilhoso mundo
da sétima arte no filme 8 Mile, tendo o resultado reunido
a aprovação do público e da crítica.
Apesar
do arranque acidentado, o ano termina em grande para Eminem, que ao que
parece está reconciliado com Kim, sua mulher e mãe da sua
filha Hailie Jade Scott, e os três estão a viver juntos em
Detroit. Mais popular que o presidente dos EUA, estando duas casas por
si já habitadas a render milhões de euros aos atuais proprietários
em leilões Ebay, Eminem continua a disparar para todos os lados,
sobretudo para os da mãe, como se nunca tivesse sido catapultado
do circuito underground para o centro do mundo. Continua, no entanto,
a separar a realidade da ficção através das personagens
por si criadas, e principalmente através do seu maléfico
alter ego Slim Shady. Resta agora ao público aprender a separar
as águas.
II.
Agora ou Nunca
"You
better lose yourself in the music,
The moment you own it, you better never let it go
You only get one shot, do not miss your chance to blow
'Cause oportunity comes once in a lifetime"
Criado
num mundo onde minutos podem ser significado de vida ou
morte, escurecido pelo racismo e dificultado por um pai ausente e uma
mãe... também ausente, Eminem depressa aprendeu a agarrar
as mãos que lhe foram sendo estendidas. Quando em meados de 90
se viu frente ao microfone no programa Wake Up Show, numa
rádio de Los Angeles, aproveitou o momento como se da oportunidade
da sua vida se tratasse. Deu tudo por tudo, ignorou os preconceitos de
que poderia vir a ser alvo, e em poucos minutos fez um medley de rimas
tão carregado de revolta que deixou todos à sua volta de
boca aberta.
Quem
gostou do que ouviu foi Dr. Dre, que não descansou enquanto não
descobriu quem era o tal ill-ass white boy, que durante algum
tempo chegou a imaginar negro. Reza a lenda que Dre descobriu uma maqueta
de Eminem no chão da garagem do executivo da Interscope, Jimmy
lovine, que teria visto no rapper branco não mais do que outro
Vanilla Ice. Dre, por outro lado, recrutou Eminem para a sua editora já
depois de ter assistido, em 1997, à sua participação
nas Rap Olympics (onde se estreou com o nome Eminem construído
a partir da junção dos dois M, iniciais de Marshall Mathers).
Pouco
habituado a receber medalhas de prata, Eminem recarregou baterias e mostrou
que podia ter perdido uma batalha, mas a guerra, essa, era sua. Pouco
depois era ele quem
estava em estúdio com Dr. Dre, seu principal mentor e a quem hoje
agradece tudo o que aprendeu.
No primeiro dia de trabalho conjunto gravaram o êxito My Name
Is, em cerca de uma hora. O mentor de Eminem disse em 1999 à
Rolling Stone, que as pessoas sempre encararam o fato de Eminem
ser um rapper como uma coisa pouco natural. «É como ver um
gajo negro a cantar música country e western, percebem o que quero
dizer? Mas eu nunca liguei a comentários como Ele tem olhos
azuis ou Ele é um rapaz branco. Não me
interessa que sejas roxo, se tiveres power trabalho contigo. Com o tempo,
o talento vai sobrepor-se a tudo isso, e o Eminem vai ser o último
a rir (...)».
O
primeiro passo estava dado, o primeiro álbum de Eminem estava nos
escaparates e era um sucesso de vendas. Estávamos em 1999 e, no
final do ano, The Slim Shady LP já tinha vendido mais
de um milhão de cópias e estava confortavelmente instalado
na primeira posição das tabelas de vendas norte-americanas,
espalhando-se, a pouco e pouco, a euforia pelos quatro cantos do mundo.
III.
A Culpa é da Minha Mãe
"(AHHH!)
Shut up you slut, you're causin' too much chaos
Just bend over and take it slut, okay Ma?
Oh, now he's rapin' his own mother, abusing a whore,
Snorting coke, and we gave him the Rolling Stone cover?
You goddamn right bitch, and now it's too late,
I'm triple platinum and tragedies happened in two states."
A
turbulência constante que se abateu sobre a infância de Eminem,
deu-lhe material suficiente para editar um livro por ano até ao
resto dos seus dias. Ele escolheu relatar os episódios através
da música, e hoje é aquilo a que se pode chamar o verdadeiro
contador de histórias dos tempos modernos. A dada altura apercebeu-se
que as coisas tinham mudado. Tinha lançado o álbum de estréia,
dado uma série de concertos memoráveis e podia finalmente
partilhar com o mundo todo o ódio que sentia pela mãe. Mais
processo, menos processo, a verdade é que as coisas começavam
a correr-lhe de feição, tendo chegado inclusivamente a assustar-se
com o rumo da sua vida.
Habituado
que está a viajar de um lado para o outro, andar em digressão
não
deve constituir grande problema para Marshall Bruce Mathers III. Nasceu
em St. Joseph, no Estado norte-americano do Missouri, mas passou com a
mãe uma vida de nômade, repartida entre o Missouri e o Michigan,
nunca ficando mais do que um ano ou dois na mesma casa, até ter
completado onze anos de idade. A partir dessa altura, as versões
da vida a dois, vivida por mãe e filho, dividem-se, dependendo
do interrogado..
A
versão de Marshall é hoje contada na sua música:
gritos, discussões, drogas, racismo, enredos dignos do grande écran,
lutas, roubos. A mãe, Debbie Mathers-Briggs nega tudo, alegando
que foi o seu amor pelo filho que o ajudou a atravessar os momentos difíceis
provocados pela separação do pai.
Mãe
solteira, Debbie foi parar com os dois filhos (Marshall e o seu meio-irmão
mais novo Nathan) a um quarteirão onde para além da sua,
só havia mais duas famílias de raça branca. Eminem
começava então a sofrer na pele o problema de ser diferente.
Tinha dezesseis anos quando lhe apontaram pela primeira vez uma pistola
à cara por... ser branco. Apenas mais um dos episódios-novela
por que passou ainda em idade escolar.
Empenhado
em não seguir o exemplo dos pais, Eminem quer hoje, acima de tudo,
que Hailie saiba da importância que tem na sua vida, o que nem sempre
será fácil, caso continuem a surgir as freqüentes e violentas
divergências entre o rapper e Kim, mãe da sua filha. Consta
que o casal declarou recentemente o cessar fogo, mas canções
como 97 Bonnie and Clyde deixam bem claro que nem sempre
tudo foram rosas na vida a dois, especialmente desde o nascimento da Hailie.
Tudo uma questão de temperamento, e Eminem é o primeiro
a reconhecer que não é um rapaz de fácil trato, admitindo
sem reservas que Se estiver chateado com a minha namorada, vou-me
sentar e escrever a canção mais misógina que conseguir.
IV.
O Fruto Proibido é o Mais Apetecido
"You
see I'm... just Marshall Mathers...
I'm just a regular guy I don't know why
All the fuss about me...
Nobody ever gave a fuck before
All they did was doubt me...
Now everybody wanna run they mouth
And try to take shots at me..."
Tinha
nove anos quando ouviu rap pela primeira vez. O tio Ronnie ofereceu-lhe
a banda sonora do filme Beatin, e deu-lhe a ouvir o
tema Reckless, nela incluído. Dez anos depois, quando
o tio se suicidou , Eminem ficou arrasado. Não falou durante dias,
não conseguindo sequer comparecer no funeral. Depois de ter chumbado
no
nono ano pela terceira vez, o rapper-então-principiante abandonou
de vez a escola. Eminem conta que a mãe o mandou arranjar um emprego
para ajudar a pagar as contas quando tinha quinze anos. Caso contrário,
punha-o fora de casa. A mãe nega tudo. O que acabou por salvar
a pele de Eminem foram as rimas.
Ignorado
pelas estações de rádio e pelos DJs de Detroit, que
insistiam em perguntar-lhe por que não se dedicava antes ao rock
& roll, Eminem soube tirar partido da situação, armazenando
toda a raiva que inevitavelmente crescia dentro de si.
As
coisas pioraram quando perdeu o emprego que lhe garantia (e à mãe)
o sustento. Foi despedido do restaurante onde trabalhou durante três
anos e onde regressou recentemente para beber uma cerveja e visitar os
colegas.
A reviravolta foi dada na Primavera de 1997, ano em que o rapper fez chegar
ao mercado o seu segundo disco, intitulado The Slim Shady EP,
a mesma maqueta que lhe viria a valer a assinatura do contrato com a Interscope,
e que em 1999 seria editado sob a forma de The Slim Shady LP.
Popularizado pelo single My Name Is, Eminem depressa começou
a dar que falar, ainda que nem sempre pelas razões certas. Apelidado
de palhaço por meio mundo, o rapper recolheu todas
as críticas negativas com a maior das atenções, e
na volta acabaram por ser os interessados em deitá-lo abaixo os
principais responsáveis pela produção do seu segundo
álbum, The Marshall Mathers LP, uma vez que inadvertidamente
lhe foram dando material para a composição de novas rimas.
As
críticas (pouco) puras e duras continuaram bem presentes no novo
álbum, e em 2001 foi a vez da comunidade gay de Los Angeles manifestar
o seu desagrado face à homofobia declarada de Eminem. Enquanto
o rapper atuava ao lado de Sir Elton John na cerimônia de entrega dos
prêmios Grammy, o protesto decorria cá fora, dado que a Gay and
Lesbian Alliance Against Defamation interpretou as atitudes de Eminem
como ofensivas, manifestando-se ainda desiludida com a participação
de Elton John no evento. Nessa noite, para além de um abraço de Elton
John, o rapper levou para casa o prêmio de Melhor Atuação Rap a Solo (por
The Real Slim Shady) e Melhor Álbum Rap (por The
Marshall Mathers LP).
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