Até a mãe
Processado por todo mundo, o rapper Eminem fatura com imagem de bravo

Agressivo, boca suja, com um monte de processos nas costas, o americano Eminem tem o perfil ideal dos ídolos do rap. Exceto por um detalhe: a cor. Loiro descolorido, ele procura compensar essa desvantagem posando de mais brigão ainda. Tem funcionado. Eminem é o fenômeno do momento em matéria de rap. Seu último disco, lançado no começo do ano, já ultrapassou a marca de 6 milhões de cópias vendidas e colocou o cantor no topo das paradas nos Estados Unidos. Em setembro, ele foi um dos destaques do Video Music Awards, a badalada premiação anual da MTV. Chegou à festa acompanhado de um exército de sósias e saiu de lá consagrado, carregando três troféus e nenhuma briga com outra estrela, a inofensiva Britney Spears, desancada numa de suas músicas (veja quadro). Enquanto acontecia a premiação da MTV, militantes gays protestavam contra ele nas ruas de Nova York – suas letras atacam os homossexuais com o mais rasteiro preconceito. As mulheres são tratadas com a brutalidade habitual dos rappers. Mas, na corrida para bater a concorrência, Eminem caprichou, incluindo na pancadaria verbal a própria mãe e a ex-mulher. Resultado: o rapper está sendo processado por ambas, em ações que podem custar-lhe mais de 20 milhões de dólares.

Letras agressivas são a matéria-prima do rap. Sua corrente mais radical – o gangsta – vive testando os limites da tolerância da sociedade americana. Eminem faz a mesma linha e até recebeu uma espécie de certificado de autenticidade: ídolos negros, como Snoop Dogg e Dr. Dre, resolveram adotar o rapaz e lhe conferiram respaldo inédito para um branco. Dr. Dre produziu seus CDs e cantou junto com ele. Aos 27 anos, Marshall Mathers – acredite: o pseudônimo Eminem nada mais é do que suas iniciais, iguais à marca de chocolate M&M, pronunciadas em inglês – justifica sua raiva dizendo que teve uma infância difícil. Depois que papai abandonou o lar, foi criado por mamãe alcoólatra num bairro soturno de Detroit (a história tristinha deverá ser contada na autobiografia que lança em novembro, intitulada Loiro Irado). Essa rebeldia toda, no entanto, tem cheiro de farsa armada para vender CDs, especialmente num período em que a indústria cultural americana tem investido avidamente na baixaria. Milhões de garotos brancos que cresceram ouvindo a música e cultuando o modo de vida dos rappers negros identificaram-se imediatamente com Eminem.


A primeira pessoa a se sentir lesada com os impropérios do cantor foi sua mãe. No ano passado, resolveu processá-lo por causa de uma letra que a descreve como drogada e descontrolada. Pediu 10 milhões de dólares de indenização. Neste ano, depois que o filho a atacou de novo, ela entrou com um segundo processo, de 1 milhão de dólares. Eminem adora fazer letras em que narra o assassinato de seus desafetos. Seu último disco, The Marshall Mathers LP, está cheio disso. "Sua vagabunda, eu vou matar você!", dispara contra a própria genitora. O alvo preferencial, porém, é a ex-mulher, Kim. Em junho, Eminem foi preso por agressão a mão armada, depois de flagrá-la beijando outro homem numa boate (rapper traído, pode?). No CD há uma faixa em que diz que gostaria de assassiná-la e depois pedir ajuda à filhinha de ambos para enterrar o corpo. "Quero ver você morrer sangrando", vocifera. Kim naturalmente abriu processo, por difamação. Também quer seus 10 milhões de dólares. Os xingamentos aos homossexuais proliferam. Seja quando critica grupinhos adolescentes na linha do 'N Sync, seja por puro mau gosto, ele sempre aproveita para atacar os gays. Chegou ao extremo de fazer uma música parodiando o assassinato do estilista Gianni Versace por um garoto de programa, em 1997. O branquinho que quer parecer negro acaba mesmo é se comportando como um skinhead.



Marcelo Marthe (Revista Veja - 04/10/00)

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